então a vida arrombou a porta.
(nada demais, pra que o estardalhaço, isso já me aconteceu antes e ainda acontecerá de novo, e ainda a cada vez será a primeira vez)
sim, mas arrombou com tudo, fez três dias um mês, e depois uma semana um ano.
e assim prossegue, geometricamente desarticulando os canteiros do jardim, os gatos que não têm cestos, a casa de paredes coloridas, o sorriso gordo pregado no rosto, o abraço quente que virou retrato guardado, o cheiro da comida fumegante.
e assim prossegue trazendo gentes e levando outras, deixando muito claro que daqui pra frente o arrombamento é praxe, serventia da casa que só tem janelas, cheia de esquinas e bolsos furados.
e assim prossegue com um zelo pela brutalidade, deixando muito obscura a mesquinharia ou a ingenuidade das claridades, das gavetas discretas, da roupa dobrada, do dinheiro contado, do tudo esperado.
dos minutos espero tudo por não esperar nada, os minutos que trazem afagos ensolarados e micro-eroticidades em escala de cor, de-gradação gloriosamente insana.
aos minutos brindamos depois de arrastar nas costas o centro da cidade, o freio e o acelerador, a dor entalada e despida até deixar de doer.
dos minutos falamos afogados.
aos minutos oferecemos o que não podemos. para poder.
e tendo arrombado a porta, foi do estupro ao estupor.
e tendo deixado obscuro o claro, foi cusparada, mas também foi dom.
e como não cabe tanto, trasbordo e declino mesmo que delicadamente.
fico sabendo do que ainda não sei, do que já não quero, do que ainda posso.
corro na tua direção apenas para desviar no último instante, porque chego primeiro que o saber, ou antes de já não querer.
por outra, conservo em mar aberto um nada sei, um tudo consta.
já não tenho chaves, durmo ao relento que é a casa inteira, a vida inteira depois de arrombada a porta.
tanta coisa que ficou sendo, tanta coisa a acenar.
nessa, e entre tanto cuspe e entre tanto sangue, nessa vi como era pequeno e serial aquilo que me pareceu exceção. aquilo que vai ganhando camadas de desencanto, assim em vertigem de trincar, e trincar, e trincar.
é só um intervalo, mas é nele que jogamos.