Wednesday, April 04, 2007

oráculo

Abraçada aos joelhos, ela ocupava quieta o próprio corpo, examinando absorta a casquinha do machucado. Um nadinha que não sarava, por atenção demais ou de menos.
Num rasgo, viu dividirem-se As Pessoas (esta entidade) entre aquelas que esquecem e aquelas que veneram os machucados. Entre os esquecem deliberadamente, precisando policiar-se para manter o esquecimento, e os que não fazem esforço para esquecer, precisando policiar-se para lembrar de passar o mercúrio-cromo. Entre os que veneram envolvendo em cuidados do tipo artilharia-contra-passarinho, e os que veneram praticando o mágico ritual do tirar-e-tirar a casquinha, encantados com a persistência cega do quinhão bio-gerido do eu.
Levando-se em conta as impermanências e os constantes fluxos migratórios de um estado de ser a outro, estavam contempladas todas as disposições possíveis diante dos machucados.

Quem ganhava, em todos os casos, era o machucado: acaba que sarava (mas quem decide onde acaba a história?).
Mas ficava ou não a cicatriz, denunciando os percursos.

Friday, November 24, 2006

salivares

desperta-te montanha ressonante, ao toque desses dedos de sereno. cá embaixo, na terra da vigília, aquele fluxo vital que é também narrativa espera por tua desordem.
tão insuportável quanto felicidade demais, essa anestesia majestosa, sangue seco nas bordas dos teus lábios cheios. quietos. sem portas nem janelas, grande meio de agonia pacificada.
caquinhos de caos cortam teus pés quentes que ensaiam uns passos sempre primeiros.
esses olhos esfarelantes não são provisórios, assim como nunca existiram comportas.
ninguém olha pelo milagre dos minutos.
é só essa imensa colagem que acontece e acontece. e não é só.
desperta-te desse mar agitado de lambidas ou talvez labaredas. línguas consortes, esfregância angulada.
enquanto dormias teu sono desejante, mudo, escorriam as letras desfeitas. pelo chão ficaram as palavras do sempre, bloco compacto.

Thursday, November 23, 2006

brotamentos

um pequeno aninhado, ainda ilha. vitalismo que se organiza, em água de espera, em filó que protege. a convalescência, inebriante tonta dolorida, a abrir caminho em meio poluído. trocar a pele áspera. fazer de novo.
dói a garganta, processador rebelado de tanta-tanta-fala. resmungam os ossos, os músculos. uma carcaça a despir. fazer de novo.
os verdes de molho, a iniciativa.
no banheiro do primeiro andar estava o oráculo.
nos bosques a reconquistar dançavam os amigos. e as frases líquidas.
naquele tablado de ocasião - ia a tarde - cintilaram fagulhas do ser.
a aceitar: o movimento do novo, mas também o que persiste, e fica sendo matéria de mim. observar, moer, processar. que seja bem dirigido, a preservar o encanto do alheio, a fabricar (ad)miração. mir ação.
fazer de novo.

Wednesday, November 15, 2006

troque regularmente sua senha

escolha outra camisa. reveja seus pontos de vista. para sua insegurança. pára sua insegurança.
escolha outro nome para o cansaço. não volte mais. esfarele os ossos se for preciso.
prefiro ser impreciso. retruque.
tome parte do folguedo. deixe de lado o caderno. um minutinho.
dois passos mais e estará feito. é mesmo dessa matéria de caos que pretendeu extrair algum sentido?
roer qualquer coisa não estava nos planos.
os planos não continham uma vida.

Thursday, June 01, 2006

o grito

ópera secreta de indiscreto silêncio. quase te pergunto, quase te atiro as facas, quase te cravo os dentes.
quase desafeto de tanta ressonância, um regurgito que cansa, que cava desimportância de tanto que importa, que declina quieto mudo e no entanto articulado como nunca dantes.
faz-se o quê com tanta chuva e um buraco tão raso (mas também largo ao infinito)? encolho sem mais (ou com tanto). desfio o lacre da memória. destampo a invenção, deixo-a corromper-se de mundo.
descanso na rede de frouxas tecituras. aquela que bordo enquanto deito, enquanto não durmo.

Wednesday, May 31, 2006

desabotoaduras e outras histórias

então a vida arrombou a porta.
(nada demais, pra que o estardalhaço, isso já me aconteceu antes e ainda acontecerá de novo, e ainda a cada vez será a primeira vez)
sim, mas arrombou com tudo, fez três dias um mês, e depois uma semana um ano.
e assim prossegue, geometricamente desarticulando os canteiros do jardim, os gatos que não têm cestos, a casa de paredes coloridas, o sorriso gordo pregado no rosto, o abraço quente que virou retrato guardado, o cheiro da comida fumegante.
e assim prossegue trazendo gentes e levando outras, deixando muito claro que daqui pra frente o arrombamento é praxe, serventia da casa que só tem janelas, cheia de esquinas e bolsos furados.
e assim prossegue com um zelo pela brutalidade, deixando muito obscura a mesquinharia ou a ingenuidade das claridades, das gavetas discretas, da roupa dobrada, do dinheiro contado, do tudo esperado.
dos minutos espero tudo por não esperar nada, os minutos que trazem afagos ensolarados e micro-eroticidades em escala de cor, de-gradação gloriosamente insana.
aos minutos brindamos depois de arrastar nas costas o centro da cidade, o freio e o acelerador, a dor entalada e despida até deixar de doer.
dos minutos falamos afogados.
aos minutos oferecemos o que não podemos. para poder.
e tendo arrombado a porta, foi do estupro ao estupor.
e tendo deixado obscuro o claro, foi cusparada, mas também foi dom.
e como não cabe tanto, trasbordo e declino mesmo que delicadamente.
fico sabendo do que ainda não sei, do que já não quero, do que ainda posso.
corro na tua direção apenas para desviar no último instante, porque chego primeiro que o saber, ou antes de já não querer.
por outra, conservo em mar aberto um nada sei, um tudo consta.
já não tenho chaves, durmo ao relento que é a casa inteira, a vida inteira depois de arrombada a porta.
tanta coisa que ficou sendo, tanta coisa a acenar.
nessa, e entre tanto cuspe e entre tanto sangue, nessa vi como era pequeno e serial aquilo que me pareceu exceção. aquilo que vai ganhando camadas de desencanto, assim em vertigem de trincar, e trincar, e trincar.
é só um intervalo, mas é nele que jogamos.

Wednesday, May 24, 2006

meia verdade de cada vez

sim eu morreria. morreria se fosse só um pouco menos voraz. concederia em morrer. o que me incomoda no morreria é que ele é condicional. eu não tenho a condição a oferecer. então não morreria. ainda morreria, porque não ter condição a ofercer é a condição que tenho. oi, flor, disse ela sem dizer, com dedos digitantes sobre o celular. oi, flor, tenho saudades, tenho vontades, tenho coisas demais. ela disse, mas o ruído a levou embora. ela disse, primeiro com olhos devorantes depois com olhos lacrimosos depois com olhos investigativos depois com olhos curiosos depois com olhos devorantes. devorantes ficaram e estão.
mas eu morreria se me fosse vedado a escrever e então só por isso apenas tão somente porém contudo todavia e ainda assim deixei-te naquela tarde chuvosa com a garrafa d'água nas mãos geladas eu tinha ainda um fundo de café na xícara e disse sem dizer tchau flor pq senão eu morreria. disse tchau flor não quero saber o que você quer comigo não me conte não quero saber se fiz uma renúncia não quero saber de nada.
ela é danada inteligente nos olhos aquosos eu já devia ter visto tudo ninguém tem olhos aquosos impunemente e se eles se põe devorantes já era mermão perdeu. não desistem assim. então ela me disse oi, flor tenho saudades, tenho vontades, estou aqui nessa mesma cidade na garganta dessa mesma cidade fica a quinze minutos de ônibus da tua casa não faça doce deixa eu passar as mãos nesse teu cabelo deixa. ou não era você que queria cuidados? ou não era porque estávamos dando mole na mesma freqüência de pedido de socorro que nos achamos. ou não era porque éramos tão iguais e fizemos tudo tão diferente com essa mesmidade. ou não era por isso que te achei fascinante e não te deixei ir embora?
era por tudo isso e então tenho teus cachos entre os dedos.

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