balé da tarde glacial
Todo fim de tarde entram pela janela os vaga-lumes incertos e a música das classes de balé. Deixo-me estar na música, descompassada com a crueza das batalhas intelectuais. Aquieta como abraço. Como um manto sobre o qual bordam as sapatilhas (eu as vejo). Na casa em frente, rendada. Na rua dos postes afilados e luz bruxuleante. Na rua estreita em que moro eu, os acrobatas, as bailarinas.
Na sobrevida das quintas-feiras (depois da caça ao dinheiro incorpóreo, rouca de voz e de alma).
Encharco as plantas em sistema de compensação. Pelos dias de sede em que me abstive
Durmo no teu abraço quente, diagnosticando a morada dos teus muitos cheiros.
Um primeiro dia de friozinho, as águas de março, o vento que varre essa casa vazada.
Leio A.C. entre um parágrafo e outro. Mover o gigante.
Transportando areia nos meus bolsos furados, assim o edifício nada edificante. Assim a escarificação da tese.
Nas pernas ficaram as marcas roxas do último salto. A paixão do tecido, um pedaço de circo em vida-enxaqueca.
De olhos fechados, lá no alto. Eu danço.

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